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terça-feira, 13 de setembro de 2011
Citação
"Como dois pássaros de ouro empoleirados na mesma árvore, como amigos íntimos, o Ego e o Eu habitam o mesmo corpo: o primeiro come os frutos doces e amargos da árvore da vida, enquanto o último observa com desprendimento".
Mundaka Upaniskad
sábado, 27 de agosto de 2011
sábado, 20 de agosto de 2011
Entre palavras, o silêncio
Em A vida secreta das palavras, Isabel Coixet nos ajuda a entender o silêncio como busca de paz interior.
Direção: Isabel Coixet / Atores: Sarah Polley, Tim Robbins, Javier Cámara, Eddie Marsan / Lançamento: 2005 (Espanha) / Duração: 115 min / Gênero: Drama.
Como podemos viver com o nosso passado? Esta é uma pergunta difícil e que raramente temos coragem de nos fazer. Certamente ela dilacera a qualquer um, pois atrás de cada um de nós resta silenciado algum acontecimento marcante, alguma ferida ardente que necessita de mãos tênues e compreensivas para sarar.
A vida secreta das palavras é o silêncio, cimento que alicerça o dito, entrelinha que revela numa explosão de sentimentos a verdade que mesmo exposta não pode ser vista. Por que tamanho segredo? Por que desligar-se do mundo com um toque, liga-desliga, ouve-não ouve, é defesa, Hannah? Seria por causa das marcas impressas em teu corpo no passado violentado por soldados de seu próprio país?
O que sei é que a tua solidão auto-imposta não passa de busca alucinada por paz interior. É o desejo desconcertante de provar o mundo, seus sabores e sua gente... Sim, Hannah, é desejo puro de amar e ser aceita apesar de. Eu te entendo como entendo a mim mesmo.
Sabe, fiquei feliz ao ver você ir além do arroz branco, frango assado e maçã. Foi curioso e ao mesmo tempo constrangedor ver tua fome do mundo ser temporariamente saciada por um prato de nhoque acompanhado de sorvete de queijo, aliás, o favorito do seu amado. Amado? Verdade, a essa altura nem mesmo você sabia que estava apaixonada por um menino de três vezes quinze anos.... Nesse reino encantado flutuando em mar aberto, resistindo a 25 milhões de ondas, você já era a rainha dele, heroína simples, de nome Cora.
Amor em carne resplandecente e crua. Amor no cuidado, no toque mútuo em feridas abertas. Deixe a tempestade rolar, contemple o mar e não esqueça de vigiar os mexilhões, fale a verdade, seja sincera e diga a quem você admira:
- Eu não acreditava que ainda existiam pessoas como você.
Na sua alegria em reconhecer no outro a ousadia do sonho, você é especial, Hannah, e, mesmo nunca tendo sido muito alegre, ainda há de sorrir outras vezes. Acredite, por mais secretas que sejam as palavras, a vida que há nelas vai nos fazer felizes.
Direção: Isabel Coixet / Atores: Sarah Polley, Tim Robbins, Javier Cámara, Eddie Marsan / Lançamento: 2005 (Espanha) / Duração: 115 min / Gênero: Drama.
Como podemos viver com o nosso passado? Esta é uma pergunta difícil e que raramente temos coragem de nos fazer. Certamente ela dilacera a qualquer um, pois atrás de cada um de nós resta silenciado algum acontecimento marcante, alguma ferida ardente que necessita de mãos tênues e compreensivas para sarar.
A vida secreta das palavras é o silêncio, cimento que alicerça o dito, entrelinha que revela numa explosão de sentimentos a verdade que mesmo exposta não pode ser vista. Por que tamanho segredo? Por que desligar-se do mundo com um toque, liga-desliga, ouve-não ouve, é defesa, Hannah? Seria por causa das marcas impressas em teu corpo no passado violentado por soldados de seu próprio país?
O que sei é que a tua solidão auto-imposta não passa de busca alucinada por paz interior. É o desejo desconcertante de provar o mundo, seus sabores e sua gente... Sim, Hannah, é desejo puro de amar e ser aceita apesar de. Eu te entendo como entendo a mim mesmo.
Sabe, fiquei feliz ao ver você ir além do arroz branco, frango assado e maçã. Foi curioso e ao mesmo tempo constrangedor ver tua fome do mundo ser temporariamente saciada por um prato de nhoque acompanhado de sorvete de queijo, aliás, o favorito do seu amado. Amado? Verdade, a essa altura nem mesmo você sabia que estava apaixonada por um menino de três vezes quinze anos.... Nesse reino encantado flutuando em mar aberto, resistindo a 25 milhões de ondas, você já era a rainha dele, heroína simples, de nome Cora.
Amor em carne resplandecente e crua. Amor no cuidado, no toque mútuo em feridas abertas. Deixe a tempestade rolar, contemple o mar e não esqueça de vigiar os mexilhões, fale a verdade, seja sincera e diga a quem você admira:
- Eu não acreditava que ainda existiam pessoas como você.
Na sua alegria em reconhecer no outro a ousadia do sonho, você é especial, Hannah, e, mesmo nunca tendo sido muito alegre, ainda há de sorrir outras vezes. Acredite, por mais secretas que sejam as palavras, a vida que há nelas vai nos fazer felizes.
quinta-feira, 18 de agosto de 2011
Todo corpo tem mais que um desejo
Hoje, caminhando de volta para casa depois do trabalho, encontrei o Marcelo que me chamou para falar sobre um texto que eu escrevi há três anos, sendo originalmente publicado no OVERMUNDO. Motivado pela lembrança, aproveito para trazer esse texto aqui para o blog... É o que segue...
Tela de Frida Kahlo, artista mexicana e bissexual.
“Pois quando eu te vejo
Eu desejo o teu desejo”
(Caetano Veloso, Menino do Rio)
Acontece de Marisa Monte estar a perguntar se alguém é capaz de resistir a uma tentação. O fato ocorre e continua a se repetir toda vez que se ouve a música “A primeira pedra”. Adiantando as inúmeras respostas “sim” - esperadas de todos aqueles que se reprimem -, a artista dá o seu recado libertador: Deixe a sua natureza se manifestar.
Fiquei, então, pensando em qual seria a natureza dos meus e dos teus desejos. Claro que alguém já deve ter abordado isso. Ao buscar a resposta, me informei sobre a Teoria da Sexualidade de Sigmund Freud e escrevo aqui os meus achados.
Para o célebre psicanalista é fato: todo mundo é bissexual. Ou, no mínimo, o somos em potencialidade. Para ele, homens e mulheres não diferem tanto assim. Em termos psicológicos, anatômicos e fisiológicos guardamos inúmeras semelhanças e poucas são as diferenças. Ou seja, de acordo com as idéias freudianas, a orientação sexual seria especialmente condicionada por fatores psicossociais e não meramente por características naturais.
O que chama a atenção nessa teoria é a coragem de seu autor. Coragem de ousar afirmar isso em uma época na qual os órgãos genitais determinavam tudo: as pessoas, os papéis sociais, os destinos, as vidas. Muito corajoso mesmo, esse tal de Freud, pois afirmar isso ainda hoje é polêmico. Prova disso é o rebuliço criado pelas idéias do cientista italiano, Umberto Veronesi. Segundo seus estudos, lançados em agosto do ano passado durante uma conferência na região da Toscana, a humanidade caminha para a bissexualidade.
De acordo com tais pesquisas, ao longo do século XX os novos hábitos de vida promoveram uma espécie de diluição do perfil de cada gênero. Homens e mulheres passaram a atuar de maneira cada vez mais parecida. Atualmente compartilham funções que antes eram tidas como apropriadas apenas a um dos sexos. O autor argumenta ainda que os homens não precisam mais de agressividade, pois não têm mais um clã ameaçado para defender. Enquanto que as mulheres com a conquista do mercado de trabalho tiveram que desenvolver novas posturas sociais, tais como, empreendedorismo, liderança e força - características até pouco tempo atribuídas aos homens.
Por fim, o atual fortalecimento da compreensão de que o ato sexual é, antes de ser um ato reprodutivo, uma experiência de afeto, leva Umberto Veronesi a vislumbrar uma sociedade baseada em relacionamentos não mais orientados pelo gênero, e sim pela simples condição de nossos amores serem humanos.
“Pois quando eu te vejo
Eu desejo o teu desejo”
(Caetano Veloso, Menino do Rio)
Acontece de Marisa Monte estar a perguntar se alguém é capaz de resistir a uma tentação. O fato ocorre e continua a se repetir toda vez que se ouve a música “A primeira pedra”. Adiantando as inúmeras respostas “sim” - esperadas de todos aqueles que se reprimem -, a artista dá o seu recado libertador: Deixe a sua natureza se manifestar.
Fiquei, então, pensando em qual seria a natureza dos meus e dos teus desejos. Claro que alguém já deve ter abordado isso. Ao buscar a resposta, me informei sobre a Teoria da Sexualidade de Sigmund Freud e escrevo aqui os meus achados.
Para o célebre psicanalista é fato: todo mundo é bissexual. Ou, no mínimo, o somos em potencialidade. Para ele, homens e mulheres não diferem tanto assim. Em termos psicológicos, anatômicos e fisiológicos guardamos inúmeras semelhanças e poucas são as diferenças. Ou seja, de acordo com as idéias freudianas, a orientação sexual seria especialmente condicionada por fatores psicossociais e não meramente por características naturais.
O que chama a atenção nessa teoria é a coragem de seu autor. Coragem de ousar afirmar isso em uma época na qual os órgãos genitais determinavam tudo: as pessoas, os papéis sociais, os destinos, as vidas. Muito corajoso mesmo, esse tal de Freud, pois afirmar isso ainda hoje é polêmico. Prova disso é o rebuliço criado pelas idéias do cientista italiano, Umberto Veronesi. Segundo seus estudos, lançados em agosto do ano passado durante uma conferência na região da Toscana, a humanidade caminha para a bissexualidade.
De acordo com tais pesquisas, ao longo do século XX os novos hábitos de vida promoveram uma espécie de diluição do perfil de cada gênero. Homens e mulheres passaram a atuar de maneira cada vez mais parecida. Atualmente compartilham funções que antes eram tidas como apropriadas apenas a um dos sexos. O autor argumenta ainda que os homens não precisam mais de agressividade, pois não têm mais um clã ameaçado para defender. Enquanto que as mulheres com a conquista do mercado de trabalho tiveram que desenvolver novas posturas sociais, tais como, empreendedorismo, liderança e força - características até pouco tempo atribuídas aos homens.
Por fim, o atual fortalecimento da compreensão de que o ato sexual é, antes de ser um ato reprodutivo, uma experiência de afeto, leva Umberto Veronesi a vislumbrar uma sociedade baseada em relacionamentos não mais orientados pelo gênero, e sim pela simples condição de nossos amores serem humanos.
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
Sem medo de ser/estar blasé
Blasé é uma palavra francesa que significa em português algo como entediado ou, indo mais fundo na palavra/ideia, significa profundamente entediado de tudo, na realidade ou por afetação.
Por algum tempo tive medo de ser/estar blasé. Contudo, desde que passei a tentar decifrar qual a palavra que me definia – tarefa esta inspirada na leitura frívola do best-seller Comer, Rezar, Amar, de Elizabeth Gilbert -; desde então, a palavra blasé me capturou e, confesso, que é com ela mesmo que me identifico atualmente.
Sou/estou blasé, é fato. Tanto que nos últimos tempos tenho deliberadamente optado pela reclusão, afinal, tenho julgado o mundo embotado demais e violento demais, de maneira que não vale a pena correr o risco por tão pouco. Enfim, eu não tenho fome, eu não tenho sede, eu não ardo... Estou no meio do caminho, morno, blasé...
Talvez eu não fique aqui para sempre, pode ser apenas uma fase... Quem sabe... De repente, o dia amanhã nasce quente e alegre o suficiente para me seduzir a uma caminhada... A um amor... Quem sabe... No fim das contas, porém, só não quero mesmo é ter medo de mais nada, nem muito menos de saber que sou/estou blasé.
Por algum tempo tive medo de ser/estar blasé. Contudo, desde que passei a tentar decifrar qual a palavra que me definia – tarefa esta inspirada na leitura frívola do best-seller Comer, Rezar, Amar, de Elizabeth Gilbert -; desde então, a palavra blasé me capturou e, confesso, que é com ela mesmo que me identifico atualmente.
Sou/estou blasé, é fato. Tanto que nos últimos tempos tenho deliberadamente optado pela reclusão, afinal, tenho julgado o mundo embotado demais e violento demais, de maneira que não vale a pena correr o risco por tão pouco. Enfim, eu não tenho fome, eu não tenho sede, eu não ardo... Estou no meio do caminho, morno, blasé...
Talvez eu não fique aqui para sempre, pode ser apenas uma fase... Quem sabe... De repente, o dia amanhã nasce quente e alegre o suficiente para me seduzir a uma caminhada... A um amor... Quem sabe... No fim das contas, porém, só não quero mesmo é ter medo de mais nada, nem muito menos de saber que sou/estou blasé.
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