sábado, 27 de agosto de 2011

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Meus Deus, me dê a coragem...

Clarice Lispector

Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços
o meu pecado de pensar.

sábado, 20 de agosto de 2011

Entre palavras, o silêncio

Em A vida secreta das palavras, Isabel Coixet nos ajuda a entender o silêncio como busca de paz interior.

Direção: Isabel Coixet / Atores: Sarah Polley, Tim Robbins, Javier Cámara, Eddie Marsan / Lançamento: 2005 (Espanha) / Duração: 115 min / Gênero: Drama.

Como podemos viver com o nosso passado? Esta é uma pergunta difícil e que raramente temos coragem de nos fazer. Certamente ela dilacera a qualquer um, pois atrás de cada um de nós resta silenciado algum acontecimento marcante, alguma ferida ardente que necessita de mãos tênues e compreensivas para sarar.

A vida secreta das palavras é o silêncio, cimento que alicerça o dito, entrelinha que revela numa explosão de sentimentos a verdade que mesmo exposta não pode ser vista. Por que tamanho segredo? Por que desligar-se do mundo com um toque, liga-desliga, ouve-não ouve, é defesa, Hannah? Seria por causa das marcas impressas em teu corpo no passado violentado por soldados de seu próprio país?

O que sei é que a tua solidão auto-imposta não passa de busca alucinada por paz interior. É o desejo desconcertante de provar o mundo, seus sabores e sua gente... Sim, Hannah, é desejo puro de amar e ser aceita apesar de. Eu te entendo como entendo a mim mesmo.

Sabe, fiquei feliz ao ver você ir além do arroz branco, frango assado e maçã. Foi curioso e ao mesmo tempo constrangedor ver tua fome do mundo ser temporariamente saciada por um prato de nhoque acompanhado de sorvete de queijo, aliás, o favorito do seu amado. Amado? Verdade, a essa altura nem mesmo você sabia que estava apaixonada por um menino de três vezes quinze anos.... Nesse reino encantado flutuando em mar aberto, resistindo a 25 milhões de ondas, você já era a rainha dele, heroína simples, de nome Cora.

Amor em carne resplandecente e crua. Amor no cuidado, no toque mútuo em feridas abertas. Deixe a tempestade rolar, contemple o mar e não esqueça de vigiar os mexilhões, fale a verdade, seja sincera e diga a quem você admira:

- Eu não acreditava que ainda existiam pessoas como você.

Na sua alegria em reconhecer no outro a ousadia do sonho, você é especial, Hannah, e, mesmo nunca tendo sido muito alegre, ainda há de sorrir outras vezes. Acredite, por mais secretas que sejam as palavras, a vida que há nelas vai nos fazer felizes.

McDia Feliz em Alagoas beneficiará a APALA


quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Marx estava certo (e errado) por Sérgio Malbergier

Crises podem ser supervalorizadas, ainda mais numa era de noticiário histérico e ubíquo e de mercados histéricos e ubíquos.

Há em curso uma história econômica maior (e melhor) do que a implosão da bolha de consumo e bem-estar dos países ricos, que é a emancipação econômica de bilhões de cidadãos do chamado mundo emergente.

Quanto mais o segundo ato da crise econômica global se desenvolve, mais claro fica que ela é uma crise econômica do Hemisfério Norte. Os países do Sul já saíram da crise há muito tempo. O processo de inclusão socioeconômica das massas desses países se mostrou resistente ao empobrecimento dos ricos.

Nos EUA e na Europa Ocidental, o estouro da grande bolha de prosperidade (via crédito, nos EUA; via benefícios socioeconômicos, na Europa), ainda causará muita agonia. Suas empresas, instituições e cidadãos se sentem inseguros e pessimistas quanto ao futuro, o que é mortal para os negócios, mesmo que se tenha o melhor ambiente de negócios do mundo.

Nos EUA, pátria do consumo, as vendas de carros neste ano devem ser quase 30% menores do que em 2001. O mercado imobiliário do país voltou a afundar, e nunca tantos americanos dependeram da ajuda do governo para comprar alimentos.

Corta para o Brasil, que tem um ambiente de negócios muito pior que o dos EUA, mas onde a confiança é a maior da história, as vendas de carros batem recordes, o mercado imobiliário atinge picos nunca vistos e a procura por programas como o Bolsa-família cai com o aumento do emprego e da renda.

São dinâmicas completamente diferentes. De um lado, EUA, Europa e Japão atordoados pelo estouro da bolha de prosperidade. Do outro, Brasil, China, Índia, Indonésia, Turquia, Angola, Colômbia, Peru, etc., países que depois de anos de liberalização e avanços macroeconômicos vivem processos sólidos de desenvolvimento.

É um tremendo rearranjo geoeconômico que terá conseqüências geopolíticas e culturais muito maiores do que conseguimos vislumbrar hoje.

Na edição 2011 das Maiores Ideias do Ano da prestigiosa revista americana "The Atlantic", a primeira da lista é a emergência da classe média dos emergentes.

Gillian Tett, a editora do "Financial Times" que tratou do tema, escreveu esperançosa que países como Brasil, China e Índia, que antes contribuíam com "choque de oferta" na economia mundial, ao produzir produtos mais baratos, agora, com suas massas consumidoras, podem fornecer um "choque de demanda" capaz de reativar as economias do Norte.

Diz muito de nossos tempos que consumidores como o brasileiro, o indiano ou o chinês possam ser vistos como a salvação das economias de Europa e EUA.

O otimismo aqui no Sul, estampado em quase todos os rostos brasileiros, é o oposto do pessimismo do Norte, cujo porta-voz melhor talvez seja o economista Nouriel Roubini, apelidado de Mister Apocalipse e que previu com antecedência de anos o estouro da bolha de crédito imobiliário e suas consequências.

Roubini anda tão pessimista que disse ao wsj.com que Karl Marx pode ao final estar certo sobre o capitalismo. Como?

Para Roubini, o brutal processo de desalavancagem, que reduz gastos públicos e privados, cria governos zumbis, consumidores zumbis, lares zumbis. Nos últimos anos, disse ele, houve enorme redistribuição de riqueza do trabalho para o capital, dos salários para os lucros. E como as empresas gastam proporcionalmente menos do que os lares, essa concentração reduz a demanda e ameaça a economia.

"Marx estava certo. Em algum ponto, o capitalismo pode se autodestruir. Não se pode continuar transferindo renda do trabalho para o capital sem gerar excesso de capacidade e falta de demanda agregada. Foi isso o que aconteceu. Pensávamos que os mercados funcionavam bem. Eles não estão funcionando. A empresa, para sobreviver e prosperar, pode reprimir gastos trabalhistas cada vez mais, mas os gastos trabalhistas são a renda e o consumo das pessoas. Por isso é um processo autodestrutivo", explicou (provocou) o professor Roubini.

Marx pode estar certo em algumas coisas e errado em outras. Mas é preciso notar que, se é a crise do capitalismo que traz estagnação ao Hemisfério Norte, é o sucesso do capitalismo que traz prosperidade para o Sul.

Originalmente publicado aqui.

Todo corpo tem mais que um desejo

Hoje, caminhando de volta para casa depois do trabalho, encontrei o Marcelo que me chamou para falar sobre um texto que eu escrevi há três anos, sendo originalmente publicado no OVERMUNDO. Motivado pela lembrança, aproveito para trazer esse texto aqui para o blog... É o que segue...

Tela de Frida Kahlo, artista mexicana e bissexual.


“Pois quando eu te vejo
Eu desejo o teu desejo”
(Caetano Veloso, Menino do Rio)

Acontece de Marisa Monte estar a perguntar se alguém é capaz de resistir a uma tentação. O fato ocorre e continua a se repetir toda vez que se ouve a música “A primeira pedra”. Adiantando as inúmeras respostas “sim” - esperadas de todos aqueles que se reprimem -, a artista dá o seu recado libertador: Deixe a sua natureza se manifestar.

Fiquei, então, pensando em qual seria a natureza dos meus e dos teus desejos. Claro que alguém já deve ter abordado isso. Ao buscar a resposta, me informei sobre a Teoria da Sexualidade de Sigmund Freud e escrevo aqui os meus achados.

Para o célebre psicanalista é fato: todo mundo é bissexual. Ou, no mínimo, o somos em potencialidade. Para ele, homens e mulheres não diferem tanto assim. Em termos psicológicos, anatômicos e fisiológicos guardamos inúmeras semelhanças e poucas são as diferenças. Ou seja, de acordo com as idéias freudianas, a orientação sexual seria especialmente condicionada por fatores psicossociais e não meramente por características naturais.

O que chama a atenção nessa teoria é a coragem de seu autor. Coragem de ousar afirmar isso em uma época na qual os órgãos genitais determinavam tudo: as pessoas, os papéis sociais, os destinos, as vidas. Muito corajoso mesmo, esse tal de Freud, pois afirmar isso ainda hoje é polêmico. Prova disso é o rebuliço criado pelas idéias do cientista italiano, Umberto Veronesi. Segundo seus estudos, lançados em agosto do ano passado durante uma conferência na região da Toscana, a humanidade caminha para a bissexualidade.

De acordo com tais pesquisas, ao longo do século XX os novos hábitos de vida promoveram uma espécie de diluição do perfil de cada gênero. Homens e mulheres passaram a atuar de maneira cada vez mais parecida. Atualmente compartilham funções que antes eram tidas como apropriadas apenas a um dos sexos. O autor argumenta ainda que os homens não precisam mais de agressividade, pois não têm mais um clã ameaçado para defender. Enquanto que as mulheres com a conquista do mercado de trabalho tiveram que desenvolver novas posturas sociais, tais como, empreendedorismo, liderança e força - características até pouco tempo atribuídas aos homens.

Por fim, o atual fortalecimento da compreensão de que o ato sexual é, antes de ser um ato reprodutivo, uma experiência de afeto, leva Umberto Veronesi a vislumbrar uma sociedade baseada em relacionamentos não mais orientados pelo gênero, e sim pela simples condição de nossos amores serem humanos.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Tigresa

Para Flávia...


segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Sem medo de ser/estar blasé

Blasé é uma palavra francesa que significa em português algo como entediado ou, indo mais fundo na palavra/ideia, significa profundamente entediado de tudo, na realidade ou por afetação.

Por algum tempo tive medo de ser/estar blasé. Contudo, desde que passei a tentar decifrar qual a palavra que me definia – tarefa esta inspirada na leitura frívola do best-seller Comer, Rezar, Amar, de Elizabeth Gilbert -; desde então, a palavra blasé me capturou e, confesso, que é com ela mesmo que me identifico atualmente.

Sou/estou blasé, é fato. Tanto que nos últimos tempos tenho deliberadamente optado pela reclusão, afinal, tenho julgado o mundo embotado demais e violento demais, de maneira que não vale a pena correr o risco por tão pouco. Enfim, eu não tenho fome, eu não tenho sede, eu não ardo... Estou no meio do caminho, morno, blasé...

Talvez eu não fique aqui para sempre, pode ser apenas uma fase... Quem sabe... De repente, o dia amanhã nasce quente e alegre o suficiente para me seduzir a uma caminhada... A um amor... Quem sabe... No fim das contas, porém, só não quero mesmo é ter medo de mais nada, nem muito menos de saber que sou/estou blasé.